CULTURA E TOTALITARISMO

Das totalizações ao totalitarismo
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Os exemplos de incompreensão, sectarismo e intransigência que nos foram legados pelo século 20 estão aí para evidenciar o quanto mitos e fantasias calcados em totalizações, apresentadas como capazes de fornecer um sentido unificador para a fragmentação da vida, passam logo a servir de sustentação à montagem de formas diversas de totalitarismo. Um processo que torna impossível encarar as diferenças e entender seus significados, uma vez que essas diferenças passam a ser vistas apenas como restos deixados pela operação totalizadora que as supera, e restos existem para ser eliminados ou desprezados.
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O salto improvável e mágico a que se propõem os mitos unificadores - sejam eles configurados na raça, na nacionalidade, no povo ou no partido - é o de se instituirem a partir da necessidade de superação de contradições que já foram superadas. Passa então a ser em nome desse salto - que está por ser dado e, ao mesmo tempo, já foi efetuado pela vanguarda, pelos teóricos da revolução, pelo líder carismático, ou pelo comando partidário - que o poder se apresenta como a totalização das particularidades e das diferenças que ainda estão ali, mas é como se não estivessem. É desde essa posição mágica, então, que o governo, o líder ou o partido surge como aquele que tem por missão não poupar esforços para eliminar as cisões e brechas por onde o inimigo ameaça surgir a cada instante.
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Um inimigo - e aqui se evidencia um dos mais terríveis efeitos das totalizações e dos mitos unitários - que não se configura apenas como estando no lado oposto àquele em que se encontram os que proferem o discurso do poder, mas como se estivesse no exterior do todo que esse discurso representaria. Ou seja, um caminho por onde se chega aos vários nomes da exclusão. Um jogo de referências pela negatividade em que judeu passa a indicar aquele que se encontra exteriorizado da germanidade genuína; comunista, passa a ser o que se exclui da sociedade democrática; representante da direita, o que não faz parte do povo; e homossexual, o que não pode ser aceito como incluído na normalidade. Depois que se diviniza a unidade e se entende o centralismo como único modo de alcançar um objetivo - seja ele o progresso, a revolução ou a resistência à globalização - não há como não seguir na direção da intransigência para com o outro que logo acabará encarado como inimigo do povo ou algo semelhante.
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Por isso, Lenin encontrou dificuldades para aceitar plenamente a proposição de Rosa Luxemburg de que a liberdade é sempre unicamente a liberdade de quem pensa diferente.(1) Por isso, Hitler entendeu como perigosas as manifestações da arte modernista: toda a tagarelice artística e cultural dos cubistas, futuristas, dadaístas e semelhantes não diz nada em termos raciais e não é tolerável em termos nacionais...(2) Por isso, também, já nos tempos de Lenin, foi instituída a censura que Stalin transformaria em Terror. Em 1921, Lunatcharski, a quem Lenin havia confiado o cargo de Comissário do Povo para a Instrução Pública, afirmava: nós não nos deixamos espantar diante da necessidade de censurar até mesmo as belas letras, porque sob a sua bandeira, sob seu semblante, pode ser inoculado o veneno na alma ingênua e ignorante de uma enorme massa, sempre pronta a vacilar e a recusar a mão que a conduz, através do deserto, para a terra prometida. (3) Infelizmente, sabemos a que regiões acabariam por levar promessas desse tipo.
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O engodo com que acena o discurso dos condutores do povo não reside, entretanto, apenas em oferecer para o amanhã a terra prometida, mas na ilusão de que, com a constituição do Partido e com a submissão incondicional aos seus objetivos, já hoje o sonho começa a se concretizar. É justamente porque não interessa a esse discurso que se evidencie o quanto sua fala só se constitui no terreno da fantasia que ele precisa recorrer à intimidação que, na maioria das vezes, sequer necessita utilizar-se da censura explícita, pois essa se dá a partir da própria adesão dos que se entregam aos devaneios autoritários vendo neles uma maneira de transcender as contradições sociais.
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A lógica do partido totalitário
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Segundo Slavoj Zizec, a lógica do partido totalitário consiste em apresentar as coisas como se além das classes sociais, além de suas organizações econômicas, políticas e ideológicas, que constituem em grupo as diferentes partes do universo sócio-histórico regido pelas leis objetivas do desenvolvimento social, existisse ainda o Partido, a encarnação imediata e individual dessas leis objetivas, o curto-circuito, o ponto de cruzamento paradoxal entre a vontade subjetiva e as leis objetivas.(4) A partir daí, ainda segundo Zizec, é que se estabelece o mecanismo de inversões em que o Partido aparece legitimado por representar o povo, ao mesmo tempo em que o povo só se torna povo por aderir ao Partido. Um truque de espelhos destinado a dar sustentação ao centralismo que então se justifica como ponto de encontro entre o líder e sua gente. Um encontro necessário para que as massas, os oprimidos, as populações carentes, os que lutam em defesa de sua identidade e de suas tradições, e assim por diante, possam ter um pouco mais de luz. Sob o comando do Partido, é claro, o qual, segundo Lenin, é o único capaz de tomar o poder e de conduzir todo o povo ao socialismo, capaz de dirigir e organizar o novo regime, de ser o mestre, o dirigente, o líder. (5)
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Apesar, entretanto, da posição de mestre e de líder atribuída por Lenin ao Partido, nem ele nem os seus seguidores jamais admitiram que um partido assim absoluto, acima do bem e do mal, estaria também necessariamente pairando acima do povo que lhe cabia organizar, orientar e dirigir. Ao contrário, para a teoria leninista, o poder da organização partidária e sua capacidade de apontar a direção a ser seguida viriam do fato de se tratar de um partido revolucionário, o que lhe dá a condição de estar corretamente inserido no processo histórico e lhe possibilita ser uma verdadeira encarnação do povo. A partir daí é que o estar fora do partido passa a ser não estar com o povo, e qualquer dissidência se torna uma posição contra o povo e contra a marcha da história. Com o que se arma o jogo do totalitarismo ao qual a arte, a cultura e tudo o mais têm de se submeter. Não há como admitir uma arte que não esteja em consonância com o povo e com os interesses dos seus dirigentes máximos.
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Lenin chega a proclamar uma pretensa liberdade para a literatura, associando-a, entretanto, à liberdade de fazer ou não parte do Partido: Cada um é livre de escrever e de dizer o que bem lhe agrade, sem a menor limitação. Mas toda a associação livre, incluído o partido, é livre também para afastar os seus membros que se servem da bandeira do partido para pregar idéias contrárias a ele.(6) Uma colocação aparentemente impecável, mas que repousa em um evidente sofisma, uma vez que, estar fora do partido significava estar contra o povo, contra a História e, portanto, excluído do todo. O que fica mais evidente quando, um pouco mais adiante, encontramos no mesmo texto a associação da liberdade com os ideais do Partido: Será uma literatura livre porque servirá não às senhoras entediadas, não aos 'dez mil das camadas mais altas', angustiados pelo ócio e sofrendo com as próprias banhas, mas a milhões e dezenas de milhões de trabalhadores, que constituem a nata do país, sua força, seu futuro.(7) Ou seja, é no seio do Partido que se poderá encontrar a liberdade e, aí, como foi colocado antes, paira a ameaça de expulsão sobre aqueles que se manifestarem como vozes dissonantes.
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Algo que, não por acaso, também ressoa na fala de Goebbels: Não basta que a arte seja excelente, é preciso também que ela se apresente como a expressão do povo: em outras palavras, somente uma arte que extraia sua inspiração do próprio povo pode, afinal, ser considerada excelente e significar algo para o povo a que se dirige. (8) Mais uma vez, os interesses do povo aparecem invocados como parâmetro ao qual a liberdade precisa se submeter. A única diferença é que, aqui, é ao Partido Nazista que esses interesses surgem associados.
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Como lembra Zizec, (9) foi seguindo por esse mesmo caminho que Stalin chegou à estapafúrdia proposição de limitar a pesquisa científica aos interesses do Partido - que seriam os interesses do povo. O que redundou não só nos conhecidos fracassos agrícolas, mas em situações em que o trágico e o ridículo se misturam, como quando, na introdução da publicação de Origem da vida, pela Academia Soviética, Oparin sente a necessidade de se referenciar em Stalin, afirmando que o líder havia dito que houve um tempo em que a terra era uma massa ígnea incandescente. (10) Uma afirmação obviamente banal, mas que passava a adquirir o sentido de um aval à ciência provindo da voz do próprio povo emitida pelos lábios do seu representante máximo.
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Desde a distância que o tempo nos permite tomar, a montagem dos totalitarismos do passado pode adquirir o aspecto de uma desconcertante caricatura. Cabe, entretanto, ter em conta a força de fascinação que um dia essas encenações exerceram, e não eliminar apressadamente demais a cogitação sobre se já não há por que isso voltar a suceder. Até onde fantasmagorias desse tipo continuam a espreitar uma época em que o terror, longe de ter sido eliminado, tornou-se corriqueiro nas manchetes do dia-a-dia? Analisando o modo como o stalinismo chegou a conquistar adeptos entre intelectuais e artistas dos mais bem intencionados, Julia Kristeva recorre à interpretação psicanalítica para ressaltar como os mitos da fidelidade e da adesão são ainda mais necessários e reais - de uma realidade hipnótica para os protagonistas e para o público - por se apresentarem como aplacadores de tempestades.(11) E conclui com um alerta sobre o risco do envolvimento não ter sido eliminado: Pois, se percebemos agora as causa históricas e sociais dos totalitarismos, não é certo que tenhamos desmontado seus motivos psíquicos nem que estejamos ao abrigo da necessidade identitária, que, muitas vezes... faz alternar nossas revoltas com nossas imposturas.(12)
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Notas:
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1. LUXERMBURG, Rosa. A revolução russa. Apud HOBSBAWN, E. (org). História do Marxismo. Rio de Janeiro, Paz e terra, 1984. v. 3. p. 47.
2. HITLER, A. Cartaz na Exposição de Arte Degenerada em 1937. Apud ALTSHULER, Bruce. The avant-garde in exhibition. New York, Harry N. Abrams, 1994. p. 141.
3. LUNATCHARSKI. A liberdade do livro e a revolução. Apud op. cit. nota 6, v. 9. p. 147.
4. ZIZEC, Slavoj. O mais sublime dos histéricos: Hegel com Lacan. Rio de Janeiro, Zahar, 1998. p. 187.
5. LENIN, W. Obras. Apud op cit nota 6, v. 5. p. 129.
6. ________ . Polnoe. Apud op. cit. nota 6, v. 9. p. 115.
7. Idem, ibidem. p. 119.
8. GOEBBELS, Joseph. Carta a Furtwängler. Apud. ZIZEC, Slavoj. Eles não sabem o que fazem. R. de Janeiro, Zahar, 1992. p. 83.
9. ZIZEC, Slavoj. op. cit. nota 8, p. 83.
10. OPARIN, A. El origen de la vida. Moscou, Ed. Lenguas Extranjeras, 1955. p. 18.
11. KRISTEVA, Julia. Sentido e contra-senso da revolta. R.J., Rocco, 2000. p. 237.
12. Idem, ibidem, loc.cit.
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autor:  josé luiz do amaral