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O que na obra de arte se diz como imagem, como imagem surge na imaginação daqueles que à obra vão. Primeiro, é claro, na imaginação de quem com a construção da obra lida. Nem antes nem depois, no construir-se mesmo da obra, que tanto é cálculo, armação e artimanha com astúcia desdobrada, quanto surpresa ante o ouvir o que só ali, no fazer-se da obra, aparece. A pergunta sobre onde aparece isto que se mostra ao artista, no seu manejar com o surgir da obra – e depois aparece de mil maneiras aos que à obra acolhem –, não precisa ser respondida pela localização de algum canto específico dos hemisférios cerebrais para que se entenda que o onde isso se produz é em uma dimensão de alguma forma distinta da dimensão onde residem as coisas palpáveis que aí estão. As imagens, diz-se, formam-se na imaginação. E também se diz que é fértil a imaginação do artista. Algo, portanto, como um campo em que as imagens brotam. Mas ao qual não apenas o artista tem acesso, cada um tem lá um pé. Um campo aberto, para onde se vai a todo instante, quase até sem perceber. Mas que tem algo de fechado e até mesmo de obscuro, quando não algo de proibido. Um local de transgressão, às vezes de evasão, onde há sempre espaço para o que se oculta, para o que não pode ser dito e os legisladores gostariam de que não pudesse sequer ser pensado. Na imaginação, um pode estar a salvo para ver ou fazer o que quiser. Mas pode também estar em perigo de se perder e de ser acossado pelo que por lá pode aparecer e surpreender.
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Um local, portanto, como um campo, e diverso dos domínios do que se costuma nomear como realidade. Ou, talvez, não exatamente um local, mas um jeito, um modo de funcionamento pelo qual estabelecemos um tipo de relação com as coisas que aí estão. Mas, então, um reino não alheio ao do real, ao contrário, em íntimo contatocom o real que chama a si para ser "visto" imaginariamente. O que vale dizer, para ser, com auxílio da imaginação, experimentado. É exatamente aí que a cooisa começa e se complicar: na relação entre o real e o imaginário, como encontrar as trilhas que interligam essas duas dimensões? Até onde pode ser delimitado o território de cada uma? O que acreditamos como realidade é de fato o que lá está ou o que asssim imaginamos? Como, ao dar atenção a uma das dimensões, não estendê-la ao ponto de fazer a outra sumir? Como não enveredar pelo beco sem saída de afirmar, ou que tudo é construído na imaginação ou que só tem efetiva consistência aquilo que, na qualidade de real, fora da imaginação reside? O problema está em que a colocação do real e do imaginário em campos diversos acaba por nos levar de volta à caverna de Platão, onde o que vemos não é real e o que é real nós não o vemos, restando apenas ficar à espera de que alguma divindade se digne de nos vir dizer até onde se extende um domínio, e onde o outro começa.
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A inter-ação entre o real e o imaginário.
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Se esta é uma questão com que, dede logo, tropeça o pensamento sobre a obra de arte, é também uma das mais essenciais questões com que se depara tanto a filosofia em geral quanto o pensamento sobre o psiquismo humano. Desde logo, foi como uma cogitação sobre as relações entre o real e o imaginário que Freud passou a desenvolver a teoria da psicanálise. E foi buscar material para a análise da questão justamente onde os dois teritórios mais parecem embaralhar-se e se confundir, nos sonhos e nos distúrbios afetivos. E o que ele viu nos sonhos, como mais decisivo, foram não as imagens em si, as representações armadas dos mais diversos modos, mas justamente o modo delas serem armadas. É para isso que chamou a atenção, para a maneira como as figuras dos sonhos se organizam, suas interações, o modo como se processam as condensações e deslocamentos, para o que ele denominou de trabalho do sonho, e que tem tudo a ver com a organização de uma linguagem. Uma linguagem em que real e imaginário se interligam em acordos e trocas as mais diversas. [Freud: A interpretação dos sonhos]
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O que Freud descobre – e descobre para nós em sua Traumdeutung, afastando o que recobre e oculta – é o inconsciente, onde reside o desejo e o recalque. Mas, ao apontar os mecanismos inconscientes, ele desvela também como neles tudo se passa ao nível da linguagem. No nível de um sistema de referências a que Lacan denominará de Simbólico e que, na seqüência de sua interpretação das teorias freudianas, proporá como o elo entre a imaginação e o que é percebido como sendo a dimensão do real. Este seria, segundo ele o desdobramento do mecanismo, ou do jogo, que propicia e promove as relações entre o sujeito e o mundo. Um jogo que Freud, nas conferências de 1909 nos Estados Unidos, apontava como podendo desdobrar-se em três direções: O homem enérgico e vencedor é aquele que consegue transformar em realidade os seus castelos no ar. Quando esse resultado não é atingido ... o indivíduo se desprende da realidade, recolhendo-se onde pode gozar ... ao seu mundo de fantasia cujo conteúdo se transforma em sintoma. Ou seja, por um lado, a relação considerada como saudável com a realidade e, por outro, o enclausuramento da neurose. Mas Freud acrescenta ainda uma terceira via, que é a que aqui nos interessa: Quando a pessoa inimizada com a realidade possui dotes artísticos, podem suas fantasias transmudar-se não em sintomas senão em criações artísticas, subtrai-se desse modo à neurose e reata ligações com a realidade. [Freud: Cinco lições de psicanálise]
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O que Lacan vai sobremaneira evidenciar é o quanto, na interrelação entre o que percebemos como o que está aí e o que imaginamos a seu respeito será determinante a presença dessa terceira parte que é a da organização simbólica. O poeta e o pintor sabem o quanto os símbolos instituídos em linguagem lhe oferecem tanto a oportunidade da expressão quanto uma dura barreira com a qual é preciso saber lidar para ultrapassar o seu fechamento. De tal maneira o dizer instituído nessa dimensão de uma lei, um código, é a única permeação possível entre o indivíduo e o outro, e a ligação decisiva do que se pensa e se sente com o território da realidade, que se pode dizer que o simbólico funda o real, pois só através da linguagem o real se diz e se mostra para nós. Mais ainda, pelo simbólico passará o caminho para o próprio reconhecimento daquela imagem que fazemos de nós mesmos, como um eu. Uma imagem que, como todas as imagens, na dimensão do imaginário se constrói, mas da qual só temos conhecimento, e com a qual só podemos nos relacionar efetivamente, porque a nomeamos e a sabemos como simbolicamente situada.
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Por entre interrelações.
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É como se tudo se passasse numa simultaneidade de interrelações, pelas quais o simbólico diz do real e o real se constitui em simbólico, tanto quanto o imaginário se faz real porque nele, no imaginário, estão desde logo presentes as palavras, os símbolos, os dizeres que constituem o simbólico. Um único processo, complexo e intrincado, é onde somos como entidades psíquicas. Entidades capazes de amar, inventar, interagir, fazer da vida um prazer ou um inferno, enlouquecer, ou produzir obras de arte. Mas se não encontrássemos a possibilidade de atribuir alguma ordem a esse processar-se sem fim de emoções, imagens, carnalidades e estruturas significantes, tudo se passaria para nós de forma desconexa e não nos restaria senão a opacidade do não dizer e, portanto, não ser. Ao relacionar o imaginário ao real pela linguagem, Freud nos abriu o caminho para essa ordenação e Lacan o complementou.
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Mas o caminho desde sempre já estava aberto no lidar do indivíduo com a vida, no lidar do profeta com a profecia, do legislador com a lei, do verdadeiro com a verdade, do mentiroso com a mentira, do artista com a arte. Aberto nos modos de o indivíduo, que se proclama como o que vê, conhece, imagina, ir por entre o que está aí, inclusive por entre si mesmo. Um caminho aberto em trilhas, passagens, labirintos cujos percursos a obra de arte encena, põe em cena, como um jogo sutil e arriscado, em que lida com imagens que falam do real justamente por se manterem em relação a ele deslocadas e lida com processos de linguagem, de simbolização, a que precisa submeter-se para poder subvertê-los. Um jogo sem trégua e sem fim por entre as interrelações que entre o real, o simbólico e o imaginário se estabelecem. Um jogo cuja observação ganha em nitidez quando o enfocamos tendo em vista essas relações.
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Um modo de ver a obra de arte que nos permite perceber o quanto nada nela é mais ou menos real por se dizer como fantasia, e nada nela é rompimento com o simbólico por se propor como ruptura e questionamento da linguagem. Não uma maneira de ver desde um ponto de vista exterior a obra, mas um vislumbrar lá mesmo na interioridade dessa relação nossa com o que na obra vemos; com o que nela lemos, como se lêem os códigos que giram na esfera do simbólico; com o que na obra imaginamos como imagens que ela constrói na dimensão imaginário; e com o que nela desafia a própria realidade do real. Um modo de ver a obra de arte imbricada na relação difícil com a linguagem, que ela reproduz e transgride sem cessar, e de percebê-la no enredamento com as imagens e fantasias que a colocam como um mundo à parte e também a colocam em um estar no cerne mesmo da realidade como o que a questiona e a e por ela é questionado.
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.Um sistema em três sistemas.
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Já em seu primeiro seminário, Lacan propõe o delineamento de sistemas de referências segundo os quais a percepção ocorre, apresentando-os como categorias elementares sem as quais não podemos distinguir nada na nossa experiência. Sistemas que passam a desempenhar papel central em suas teorias sobre o relacionamento entre o sujeito e a realidade e que ele configura como a relação entre o Real, o Simbólico e o Imaginário, ou relação R.S.I.
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A primeira e a mais decisiva afirmação que, segundo a visão lacaniana dos três sistemas de referências, pode-se fazer sobre o Real é a de que ele é opaco e sem acesso imediato. E é justamente a dimensão o isso que somos antes edepois de tudo; o isso que simbolizamos e imaginamos de várias maneiras, mas com o qual nunca cara a cara, sem a permeação da fantasia e da linguagem.
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O Imaginário é a dimensão do que é em imagens. E é a própria maneira de o real para nós se configurar, mediado pelo simbólico. Não, portanto, um zona de irrealidade, ou sequer alheia ao real. Ao contrário, aí é que o real se configura para nós como real realizado em imagens. Sendo que uma dessas imagens é justamente a do que denominamos de eu. Um eu que é sempre imaginário e nem por isso deixa de ser uma realidade. Uma realidade que até mesmo contribui para que outras realidades sejam permaneçam, ou reprimidas, justamente por ser a realidade de uma imagem que a outras imagens se sobrepõe.
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Nem da densidade opaca do real nem da possibilidade etérea aberta pelo imaginário teríamos, entretanto, sequer uma noção, se não nos locomovêssemos desde sempre no território do Simbólico. Tal é a nossa relação com a linguagem que não se trata de que simbolizamos o que vemos, mas de que só vemos porque simbolizamos, porque já temos na liguagem marcado o lugar para vermos o que vemos. Só assim vemos uma pedra, caso contrário ela não seria uma pedra e não teríamos como ver essa pedra não codificada. Talvez a pudéssemos então ver como uma banana, mas teríamos perdido a possibilidade de ver o que é pedra. O Simbólico então nos diz o que vemos, nos determina a ver de uma ou de outra maneira. Por isso, ele é a dimensão da lei e do super-eu. Mas sem as suas codificações não haveria a possibilidade da comunicação e o jogo não poderia ser jogado.
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.REAL
é opaco, não há acesso direto a ele
é onde está o que não sabemos, onde está o isso que nós somos
nele, a realidade não foi ainda imaginada nem codificada
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SIMBÓLICO
é o que codifica em símbolos
estrutura-se como linguagem interligando o Real e o Imaginário
determina a relação do sujeito com o outro e consigo
é o território dos códigos, da lei, do super-eu.
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IMAGINÁRIO
é o que configuramos em imagens
estrutura-se como imaginação configurando o Real e o Simbólico
lida com as determinações do sujeito pelo Simbólico abrindo caminhos
é o território da fantasia e do eu
nele, o Real aparece como real realizado pela imaginação
[ilustração]
.Três sistemas que funcionam interligados como um só sistema, mas sem se dissolverem um no outro. Um tripartição que tanto se arma em um consistente arcabouço estrutural quanto abre brechas entre suas intersecções, permitindo a alteração e a renovação do jogo aí jogado. Por isso, por que há intersecções, é que a passagem entre, o Real, o Simbólico e o Imaginário pode-se dar de modos diversos, configurando situações distintas e também configurando distúrbios como as neuroses e as psicoses.
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.A estrutura e a possibilidade do drible
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é opaco, não há acesso direto a ele
é onde está o que não sabemos, onde está o isso que nós somos
nele, a realidade não foi ainda imaginada nem codificada
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SIMBÓLICO
é o que codifica em símbolos
estrutura-se como linguagem interligando o Real e o Imaginário
determina a relação do sujeito com o outro e consigo
é o território dos códigos, da lei, do super-eu.
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IMAGINÁRIO
é o que configuramos em imagens
estrutura-se como imaginação configurando o Real e o Simbólico
lida com as determinações do sujeito pelo Simbólico abrindo caminhos
é o território da fantasia e do eu
nele, o Real aparece como real realizado pela imaginação
[ilustração]
.Três sistemas que funcionam interligados como um só sistema, mas sem se dissolverem um no outro. Um tripartição que tanto se arma em um consistente arcabouço estrutural quanto abre brechas entre suas intersecções, permitindo a alteração e a renovação do jogo aí jogado. Por isso, por que há intersecções, é que a passagem entre, o Real, o Simbólico e o Imaginário pode-se dar de modos diversos, configurando situações distintas e também configurando distúrbios como as neuroses e as psicoses.
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.A estrutura e a possibilidade do drible
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É justamente aí que cabe pensar o modo como a obra de arte fala. Se há distúrbios é porque está aberta a possibilidade da reconfiguração, há um jogo a ser jogado e, nele, a possibilidade do drible se faz presente. É para o que Freud chamava atenção quando apontava como o artista subtrai-se desse modo à neurose e reata ligações com a realidade. É que as "perturbações" podem ser ardilosamente introduzidas, como o faz a obra de arte, de tal maneira que o resultado não seja o de um distúrbio, mas o de uma sofisticada reorganização dessas relações de modo a possibilitar a fala da arte. Ou seja, um relacionamento que nos permite perceber não apenas as nuances da vida mental, mas o modo como com essas nuances a obra de arte lida, não criando imagens que seriam distintas do real, mas justamente abrindo caminhos para o simbólico e para o real em imagens florescerem.
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Para Lacan a distinção entre neurose e psicose se explica, antes de mais nada, como a introdução de uma alteração em pontos ou momentos distintos das intersecções entre o Real, o Simbólico e o Imaginário.
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.REAL ---------- SIMBÓLICO ---------- IMAGINÁRIO
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Como é no imaginário que o real se realiza como imagem, quando surge na psicose o impedimento para que isso aconteça, e o real deixa de ser conduzido pelo simbólico a se realizar no imaginário, esse real-não-realizado passa a investir o simbólico, transformado-se em uma irrealidade simbólica. É o caso das vozes ouvidas como alucinação que, não tendo sido assumidas pelo imaginário nem como imagens de realidades concretas e nem como fantasias, surgem através do simbólico como irrealidades que acossam o indivíduo.
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.REAL ---------- SIMBÓLICO ----- // ----- IMAGINÁRIO
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real irrealizado, investido pelo simbólico = alucinações
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REAL ----- // ----- SIMBÓLICO ---------- IMAGINÁRIO
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simbólico super-investido pelo imaginário = devaneios
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O jogo perceptivo e a obra de arte
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A suposição que a arte introduz perturbações no sistema perceptivo, tal como Lacan entende que acontece na neurose e na psicose, nos permite situar procedimentos que a essas configurações correspondem:
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.1º- De maneira análoga à da neurose, a obra de arte leva o imaginário a investir o simbólico, produzindo uma exacerbação da fantasia:
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2º- De maneira análoga à da psicose, a obra de arte faz com que um real que não se tornou real realizado no imaginário invista o simbólico, produzindo signos tão ambíguos quanto alucinações:
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real irrealizado, investido pelo simbólico = alucinações
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Na neurose, ao contrário, o processo é o de um corte entre o real e o simbólico devido a ter sido o simbólico investido com as imagens do imaginário. Passa-se então a superdimensionar imaginariamente o que se diz sobre o real, ou seja, opera-se com um código intensamentehabitado pela fantasia.
.REAL ----- // ----- SIMBÓLICO ---------- IMAGINÁRIO
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simbólico super-investido pelo imaginário = devaneios
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De qualquer maneira, em ambos os casos, por caminhos diversos, o que ocorre é uma alteração no processo de interrelaçãos entre os três sistemas. Alteração que também pode ser introduzida sem que se chegue aos extremos onde a psicanálise localiza a neurose e a psicose, ou que se chegue, mas de modo simulado. Isto é, pela maneira do poeta que finge que é dor a dor que deveras sente. A simulação da arte borra fronteiras, por isso a dificuldade em relacionar o que seria mentira ou verdade, irracional ou racional, loucura ou não-loucura, quando a arte entra em cena.
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É também nos limites dos três sistemas do R.S.I., e neles se posicionando não apenas como o que se conforma, que o jogo da obra de arte se arma. Aí, entretanto, o que se produz como dissonância para um rumo distinto aponta. Seja quando o artista super-investe o simbólico, com as imagens do imaginário, seja quando ele sacode as estruturas do simbólico (da linguagem) com a introdução de disparates ou alucinações perceptivas, ao contrário do corte de relações entre um e outro sistema, o que ele ardilosamente produz, jogando próximo dos limites, é um espraiar-se tanto do imaginário quanto do simbólico de modo a que suas relações com o real se recomponham em bases mais amplas e mais flexíveis.
.O jogo perceptivo e a obra de arte
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A suposição que a arte introduz perturbações no sistema perceptivo, tal como Lacan entende que acontece na neurose e na psicose, nos permite situar procedimentos que a essas configurações correspondem:
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.1º- De maneira análoga à da neurose, a obra de arte leva o imaginário a investir o simbólico, produzindo uma exacerbação da fantasia:
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Moureau: Édipo e a Esfinge.
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... lembrou, enquanto a via partir, a plenitude da eternidade, que não durara mais do que alguns segundos ...
.... lembrou, enquanto a via partir, a plenitude da eternidade, que não durara mais do que alguns segundos ...
2º- De maneira análoga à da psicose, a obra de arte faz com que um real que não se tornou real realizado no imaginário invista o simbólico, produzindo signos tão ambíguos quanto alucinações:
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Francesco Clemente
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... sobre o papel, cada palavra o olhava, silenciosamente unida às demais, e todas o acusavam de não as ter levado em conta quando ainda era tempo...
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O que, por certo, não encerra as possibilidades do jogo, mas pode ajudar a observação de algumas jogadas.
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A lide com a percepção em Matisse e em Kandinsky
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A observação de como Matisse e Kandinsky jogam o jogo das relações entre o Simbólico e o Imaginário pode nos evidenciar uma bem maior interação entre suas obras do que tem sido observado pela análise que se contenta em classificá-los sob distintos rótulos. Pouco importa se um é apontado como "figurativo" e o outro como "abstrato", quando nos deixamos levar por suas cores e por seus ritmos para o centro mesmo de um universo que tanto vibra pleno de emoção quanto se mostra como meticulosa construção ordenada pela razão.
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A reflexão cuidadosa sobre os procedimentos pictóricos que não permite a Matisse sossegar em um ponto, mas o leva à obsessiva experimentação com que constrói uma obra que não cessa de se reorganizar e de reorganizar o olhar sobre a pintura, em nada impede o vôo livre da imaginação. Ao contrário, tudo em suas construções, não se faz apenas conforme as "regras estabelecidas". O Imaginário aí transborda. Mas, ao mesmo tempo, são estabelecidas novas convenções. Ou seja, Matisse dribla o Simbólico, mas não o ignora nem deixa de afirmá-lo em sua busca pessoal de pôr o mundo em ordem. Nenhum conflito entre as duas posições a da vocação para a ordenação e a do gosto pelo rompimento de amarras: é que em sua pintura a inovação como reoordenação se diz.
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Matisse
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Não acontece de outro modo com Kandinsky, em cujo aparente descompromisso com o que se diz figura o que se revela é toda uma meticulosa busca de uma nova figuração, reveladora das estruturas mesmo do que se percebe como ordem e harmonia. Se o ir à cor se permite aí o gesto solto da espontaneidade com que o Imaginário parece fluir diretamente para a tela; não deixa, entretanto, de se revelar também a atenção que é procura do que se diz como ordenada configuração, ou seja, como bem armada trama simbólica. Como Matisse, Kandinsky propõe novas convenções tanto quanto valoriza o gesto livre e espontâneo. Em ambos, a preocupação com o Simbólico a ser recomposto, com a ordenação de novas maneiras de ver e de sentir o mundo. Mas uma atenção ao Simbólico que ao transbordamento do Imaginário busca como fonte de renovação.
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Kandinsky
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Um acordo entre os lances da imaginação e as convenções da linguagem pelo qual, sob a forma de uma observação racionalista do real, o que se esconde é um recuo para o fantasia elaborada em um Imaginário povoado de amenidades e equilíbrios com que o Simbólico passa a ser investido. Daí o resultado de beleza cativante: a insistência, tanto em Matisse como em Kandisky, na busca da "forma bela". Uma interrelação entre o Imaginário e o Simbólico que se estabelece em detrimento do Real, cuja representação não se dá em toda a extensão do que naquele momento estava acontecendo. Um recalque da representação do Real por um Imaginário que passa a investir o Simbólico com as imagens da afirmação racionalista da irracionalidade de uma fantasia que se quer liberta de tudo o que possa ser negativo no território do realidade. Tanto que nada aparece nas obras desses dois mestres da forma e da cor dos horrores da guerra e da violência, em um evidente bloqueio impedindo a realização em imagens da indesejada realidade.
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Picasso
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Um procedimento que também vamos encontrar, de maneiras distintas, em toda uma pintura que naqueles tempos insistia em uma obsessiva volta sobre si mesma, como um território preservado dos problemas de um mundo posto entre parênteses. Uma negação do Real, entretanto, que não pode, no caso de Matisse e Kandinsky, ser confundida nem com o fechamento neurótico na imaginação e nem com a demissão medrosa do engajamento social, como costumam fazer os que se apoiam em sociologismos e psicologismos apressados e enredados em suas próprias fantasias. Ao contrário, algo que mais parece apontar na direção de uma estratégia da produção artística para se afirmar contra a tradição de uma estrutura simbólica que caducou e que era manipulada tanto pelo nazismo quanto pelo comunismo, que promoviam uma arte "realista" como forma de propaganda ideológica. O que equivale a dizer que, o "irrealismo" aí surgia como alternativa de liberdade ante uma realidade apoiada na mentira e opressão. E não é preciso ressaltar como exercícios de liberdade sempre ajudam a desestabilizar os mecanismos da opressão.
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Embora a simplificação esquemática leve a um estreitamento da observação, apenas para efeito de ilustração da teoria lacaniana, poderíamos apontar, então, como os procedimentos de Matisse e de Kandinsky implicam em uma certa hipertrofia do Imaginário (lembrando a que Lacan situa na neurose) que passa a investir o Simbólico com imagens de um real fantasiado. O que, entretanto, por ser tratar do jogo da arte que é jogo para ser jogado com a emoção e a razão, não a um alheiamento, mas a um projeto de resistência conduz.
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autor: José Luiz do Amaral
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